…no princípio

…no princípio

2018, instalação,  aço corten, casquinha, água, terra vermelha, cinza, coluna áudio, 110x110x40 cm (1x), 50x50x10 cm (2x); áudio: um canal, 7´40”, loop.
 
Coleção Figueiredo Ribeiro – Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes
 

“…no princípio” (…) é uma obra composta por três tabuleiros em aço corten, um maior e dois mais pequenos, assente cada um em quatro pés de madeira, bases em formato de canto. Cada tabuleiro contém um elemento da natureza.

Na tradição chinesa, os cinco elementos componentes da terra são água, terra, fogo, madeira e metal. Os dois tabuleiros de menor dimensão apresentam terra e cinza. Neste caso, o fogo é substituído por cinza, símbolo da morte, de redução do que antes teve vida, mas também de fénix e renascimento. A terra, considerado o último dos elementos regentes do planeta a se formar, uma vez que a sua solidificação integra em si o fogo, a água e o ar, surge com o tom vermelho, sinónimo de fertilidade e também de Homem, dado que Adão foi criado a partir da terra vermelha.

No tabuleiro maior encontramos água, o elemento regente em termos astrológicos e símbolo sagrado da vida a nível religioso. O efeito da água no aço corten é de oxidação pelo que a base ganha uma patine própria de cor amarela-alaranjada que reporta para algumas fotografias apresentadas.

Esta instalação contempla ainda uma componente sonora. Por baixo do tabuleiro maior, uma coluna áudio emite um som vibracional e as ondas sonoras criam trepidação na água, evocando a frequência da Terra, a vibração do mundo natural universal. Esta trilogia convoca assim os materiais na origem da criação e reúne os conceitos de vida, céu e morte, na convergência dual ciência vs. espiritualidade.

Adelaide Ginga

Horizontes brancos

Horizontes brancos

2018, jato de tinta sobre papel de algodão, 100×150 cm.
Edição de 3+1 prova de artista

(…) São fotografias domésticas, pertencentes a um álbum de família, que agora sobrevivem como fantasmas vindos de um tempo e de um lugar indefinidos, mostrando ostensivamente a sua condição póstuma. Elas solicitam, assim, um olhar arqueológico, como as peças de um museu ou os documentos de um arquivo. Convidam-nos à construção imaginária de uma história, solicitam que preenchamos os espaços vazios do “quando”, “onde” e “quem”: quem são aquelas pessoas? Em que circunstâncias, e em que tempo, foram fotografadas?

  Este é apenas o primeiro nível de significação. (…) Mas há um outro nível de significação mais importante, e é aí que devemos apreender o que há de fundamental neste trabalho. Esse outro nível é o da subtracção destas imagens à sua condição documental e histórica. Neste caso, o artista não é apenas mediador nem tem uma atitude reverencial pelas imagens do seu arquivo. De certo modo, ele profana-as, exerce sobre elas uma manipulação que as desvia do seu lugar originário.

Essa manipulação tem duas dimensões: através da digitalização e ampliação, as imagens ganham qualidades plásticas próximas de uma disciplina artística que já não é a fotografia. Há aqui uma anulação do efeito fotográfico, até ao ponto em que o espectador sente que deixou de ser convidativo e pertinente perguntar: quem, quando, onde?

(…)Aqui, os media não têm a qualidade da transparência, não se apagam para deixar ver a imagem ou som de que são mediadores. Pelo contrário, eles têm uma especial opacidade, na medida em que são exibidos enquanto tal: as máquinas, os dispositivos técnicos, são parte integrante deste trabalho, são elementos equivalentes às fotografias. Eles são um factor de anulação do efeito documental. E, então, as imagens encaminham-se para um lugar enigmático, onde se revela a sua condição fantasmática.

António Guerreiro

excerto do texto “CONVOCAR AS IMAGENS, REVELAR OS FANTASMAS”

exposições:

Horizontes brancos [the video]

Horizontes brancos (video)

2017, Full HD video,  PAL, 16:9, P/B, dois canais, 21′ 49” (loop)
Edição de 3+1 prova de artista

(…) o vídeo, mostrando uma série de negativos, reforça a ideia de perda de referencialidade das imagens. Mas devemos reparar que este vídeo tem som, e esse som evoca uma máquina de projecção (sublinhando assim, o aspecto técnico e maquínico) e é interrompido no final por um breve discurso que parece radiofónico ou dos antigos locutores da televisão, onde é pronunciada uma frase de tom poético. Nessa frase surge a expressão que dá o título à exposição: “Horizontes Brancos”. O que faz este registo áudio e esta “banda sonora” da projecção? Trazem para o primeiro plano as máquinas de visão e de audição, integram os dispositivos técnicos como elementos fundamentais (…)

António Guerreiro

excerto do texto “CONVOCAR AS IMAGENS, REVELAR OS FANTASMAS”

(…) A narrativa — a história de uma vida ou a história de uma comunidade — é a (re)construção e a (re)organização constante das recordações pelas quais se estabelece a memória. A construção contínua e actualização de uma narrativa implica uma participação imaginativa, ou seja, uma participação ficcional que se revela no processamento da sucessão de eventos que é, como anteriormente mencionado, filtrada pelo esquecimento (e desconhecimento), na dependência que a lembrança tem da informação, da comunicação ou de um diálogo que, mais não seja, do sujeito consigo próprio. Percebe-se assim que a eleição do que se escolhe lembrar defina o tom da verdade de cada um , o tom de toda a verdade sobre o homem apresentada. É este agenciamento da temporalidade e da lembrança que nos é proposto em Horizontes Brancos; recorrendo ao seu espólio privado, o artista apresenta-nos uma nova seleção e sucessão de imagens em negativos — de evidências do desenrolamento e vida de uma linhagem — convidado ao pensamento e ao diálogo, ao testemunho e à participação numa nova história que trespasse a memória.

Andreia César

excerto do texto “Prontuário dos afectos”

O erro de Prometheus

O erro de Prometheus

2017, vídeo Full HD,  PAL, 16:9, cor, dois canais, 7′ 20” loop
Edição de 3+1 P.A.
 

Esclarece-nos a mitologia grega, que Zeus terá incumbido Prometheus da tarefa de trazer à vida os não-imortais – ou seja, os animais e os homens – distribuindo entre estes valências e qualidades de modo equilibrado. Mas Prometheus (deus da memória, do conhecimento) delega esta tarefa no seu irmão gémeo Epimetheus (deus do esquecimento e das desculpas); este, quando chegou à altura de criar o Homem, apercebeu-se de que já não tinha qualidades disponíveis, não tinha nada com que o apetrechar[1].

Protágoras, através de Platão, conta-nos então que Prometheus, de forma a corrigir o esquecimento do seu irmão, terá roubado de Hephaestus o dom do fogo, símbolo da técnica, e de Athena a inteligência[2], capacidade à época equivalente à arte, contemplando então o homem com estas valências. Este facto desagradou a Zeus, uma vez que deste modo, e graças ao esquecimento de Epimetheus, os humanos foram colocados ao nível dos deuses, capazes de se equipar através da construção de próteses – técnica – e da capacidade criadora, de formar vida – Arte…

 
[1] Stiegler, Bernard, (1998 [1994]) Technics and Time: the fault of Epimetheus, Stanford University Press. ISBN 0-8047-3041-5
[2] idem

CT1LN

CT1LN

2014 – WIP
Mas não falemos de factos. Já a ninguém importam os factos, são meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio

                                                                                              Jorge Luís Borges, “Utopia de um homem que está cansado” in O Livro de Areia

Paulo V. foi radioamador durante quatro décadas do século transato; o contacto inicial com o espólio acumulado ao longo deste período foi o mote para o questionamento e inquietação despoletada por esta atividade – o radioamadorismo. Cada mergulho nos seus livros, objetos, ou depoimentos, reforçou a consciência da existência de uma relação entre esta prática e a necessidade/motivação do ser humano em se transcender, em ultrapassar as suas limitações – questão transversal e recorrente na reflexão que tenho desenvolvido nos meus projetos autorais.

Deste projeto, iniciado em 2014, destaca-se o primeiro conjunto de obras, com incidência no gesto iniciático, no simbolismo e nas consequentes viagens virtuais que a prática do radioamadorismo potencia, sob a designação de CT1LN – Parte I: As Viagens de Paulo V.

Quatro momentos distintos pontuam esta primeira parte do projeto: através da série Artefactos é lançado um olhar arqueológico sobre as origens de Paulo V., revelando objetos relacionados com o início da sua atividade de radioamador; Templum  termo com origem na tradição romana, sendo a designação para o local escolhido pelos áugures para contemplar os astros, de modo a tirar ilações a partir da leitura do espaço celeste  nomeia o conjunto de doze desenhos, construídos sobre os registos de doze dias de viagens preconizadas por Paulo V.;a instalação Propagação #2 (Chamada geral) – de espaço e tempo – de onde emana a chamada geral em código morse emitida por Paulo V.: se esta peça remete para o  conceito de heterotopia preconizado por Michel Foucault – funcionando o posto de atividade do radioamador como um local heterotópico por excelência – já a instalação Da janela do meu quarto consigo ver o outro lado da rua (En Soph) convoca o universo de Jorge Luís Borges, onde o espelho é o veículo escolhido para a convocação do desejo de multiplicação (in)finita, lugar onde a representação é sempre uma construção.

Artefactos

Artefactos

[projeto CT1LN]

2014-2017, jato de tinta sobre papel de algodão, várias dimensões,
(serie de 18 fotografias + 2 peças áudio)
Edição de 4 (2+2)+1 prova de artista
 

Série composta por dezoito registos fotográficos, representando um conjunto de composições realizadas com base nos objetos constituintes do espólio de Paulo V., onde se pretende um olhar arqueológico, de certo modo documental sobre esta prática (do radioamadorismo).

Série composta por dezoito registos fotográficos, representando um conjunto de composições realizadas com base nos objetos constituintes do espólio de Paulo V., onde se pretende um olhar arqueológico, de certo modo documental sobre esta prática (do radioamadorismo).

Ensoph

Da janela do meu quarto consigo ver o outro lado da rua (Ensoph)

[projeto CT1LN]

2016-17, instalação, madeira, globo iluminado, espelhos, vidros espelhado, s55x55x175 cm.

 

Coleção Figueiredo Ribeiro – Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes

Instalação cujo título e conceção remetem para o Aleph de Jorge Luis Borges, dando o mote para a relação entre o ponto de origem das comunicações de Paulo V. e a sua propagação infinita, provocada pelo reflexo do globo terrestre iluminado através de múltiplos espelhos, estabelecendo uma relação com os conceitos de transcendência e ubiquidade, transversais a todo o projeto.

Templum

Templum

[ projeto CT1LN ]

2014-16, serie de 12 desenhos, técnica mista sobre papel, 70×100 cm (cada).

Templum consiste numa série de doze desenhos, que visam a exploração da dispersão, das viagens preconizadas através desta prática: partindo dos livros de registos, que representam uma base de dados que contém, entre outras informações, o número de ordem dos contatos, a data com a hora (com precisão ao minuto) em que foram efetuados, e ainda a sua localização, procedeu-se à seleção dos dias em que foi registada uma quantidade compreendida entre cem e duzentos contatos.

Esta informação é então materializada num pepel vegetal, colocada sobre um mapa-mundo, originando o percurso efetuado em cada dia um desenho diferente. Esse percurso vai sendo registado através de segmentos de reta, de ponto em ponto, construindo uma forma poligonal que apenas pode ter lugar neste espaço, neste contexto. 

Após uma série de etapas, que vão desde à criação de stencils, até à passagem da informação para o suporte final, os pontos são numerados consoante a ordem estipulada no livro de registos original.

O título da série tem a sua origem na tradição romana, sendo o Templum um local escolhido pelos áugures para comtemplar os astros, de modo a tirar ilações a partir da leitura do espaço celeste. Este é um aspeto que se revelou determinante, uma vez que provoca uma inversão do significado dos desenhos, devido ao fato das composições serem uma interpretação dos percursos efetuados por Paulo V – marcados na superfície da Terra – e remeterem para a representação de constelações.

Propagação#2 (Chamada geral)

Propagação# 2 (Chamada geral)

[projeto CT1LN]

2016, instalação, 12 caixas de madeira, leds, fio, RC board, 200x200x50 cm

Propagação #2 (Chamada geral) consiste numa Instalação elaborada com recurso à representação simbólica das gavetas onde se encontra arquivada a coleção de cartões de contato de radioamador. São reservatórios de espaço e tempo, de onde emana uma luz simultânea em todas as gavetas, correspondente à chamada geral em código morse emitida por Paulo V. (CQ CQ CQ DE CT1LN CT1LN CT1LN K), através de um dispositivo lumínico instalado no seu interior. É também percetível o som do código, proveniente da placa Arduíno utilizada na instalação.

Álbum

Álbum

Prontuário dos afectos, 2014-17, instalação, 50 imagens, jato de tinta sobre papel de algodão, 330×550 cm, Edição de 5+1 prova de artista

 

Coleção FCT – Nova
 

(…) objetos fotográficos, que ao serem utilizados como suporte de mensagens pessoais em uma das suas faces, são transformados em elementos únicos – não enquanto representações fotográficas, mas sim enquanto objetos fotográficos – funcionando as mensagens como um reforço da função de substituição da pessoa representada no retrato (…) contudo, estes objetos possuem duas faces, sendo a imagem fotográfica que serve de pretexto aos escritos, de elemento mnemónico. O que o olhar sobre estes retratos revela é um ritual manifestado pela pose, uma procura falhada da fotogenia, em que a expressão, a posição do retratado, assim como o fundo seguem um padrão.

Assim, a partir da seleção de fragmentos de retratos com analogias formais, mas de diferentes pessoas, origina-se um retrato que pode ser entendido como uma alusão a todos os rostos patentes nas dedicatórias (…) na apropriação destes objetos, num cenário criado para esse efeito, procedeu-se a um registo fotográfico integral de ambos os lados do suporte (papel). Desta forma, os objetos foram sujeitos, também eles, a um ritual de pose, a uma presença da fotografia dentro da fotografia.          

Retratos #01-#07, 2014, jato de tinta sobre papeis fotográficos, colagem, 100×70 cm (cada), prova única