CT1LN

2014 – WIP
Mas não falemos de factos. Já a ninguém importam os factos, são meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio

                                                                                              Jorge Luís Borges, “Utopia de um homem que está cansado” in O Livro de Areia

Paulo V. foi radioamador durante quatro décadas do século transato; o contacto inicial com o espólio acumulado ao longo deste período foi o mote para o questionamento e inquietação despoletada por esta atividade – o radioamadorismo. Cada mergulho nos seus livros, objetos, ou depoimentos, reforçou a consciência da existência de uma relação entre esta prática e a necessidade/motivação do ser humano em se transcender, em ultrapassar as suas limitações – questão transversal e recorrente na reflexão que tenho desenvolvido nos meus projetos autorais.

Deste projeto, iniciado em 2014, destaca-se o primeiro conjunto de obras, com incidência no gesto iniciático, no simbolismo e nas consequentes viagens virtuais que a prática do radioamadorismo potencia, sob a designação de CT1LN – Parte I: As Viagens de Paulo V.

Quatro momentos distintos pontuam esta primeira parte do projeto: através da série Artefactos é lançado um olhar arqueológico sobre as origens de Paulo V., revelando objetos relacionados com o início da sua atividade de radioamador; Templum  termo com origem na tradição romana, sendo a designação para o local escolhido pelos áugures para contemplar os astros, de modo a tirar ilações a partir da leitura do espaço celeste  nomeia o conjunto de doze desenhos, construídos sobre os registos de doze dias de viagens preconizadas por Paulo V.;a instalação Propagação #2 (Chamada geral) – de espaço e tempo – de onde emana a chamada geral em código morse emitida por Paulo V.: se esta peça remete para o  conceito de heterotopia preconizado por Michel Foucault – funcionando o posto de atividade do radioamador como um local heterotópico por excelência – já a instalação Da janela do meu quarto consigo ver o outro lado da rua (En Soph) convoca o universo de Jorge Luís Borges, onde o espelho é o veículo escolhido para a convocação do desejo de multiplicação (in)finita, lugar onde a representação é sempre uma construção.