…no princípio

2018 | Quartel da Arte Contemporânea de Abrantes – Coleção Figueiredo Ribeiro | curadoria de Adelaide Ginga

…no  princípio

 

” (…) fui parar a um largo espaço aberto, era quase redondo como uma cúpula e tinha cerca de cem metros de diâmetro.

         Nessa altura observei mudanças no oceano; a água ficou calma e a superfície era transparente, mas escura. Começou a formar-se uma espécie de muco amarelo. Elevou-se das profundezas através de grandes fendas cintilando como vidro. Ele surgiu da água, agitando e formando uma crosta. A crosta solidificou, a superfície ficou castanha como melaço (…) juntou-se em pedaços enormes, que foram lentamente tomando formas diversas (…)

         Quando olhei de novo, vi por baixo de mim uma espécie de jardim; podia ver vegetação e plantas da mesma substância (…) e tudo parecia estar em miniatura.”

Andrei Tarkovsky, Solaris, 1972

… no princípio é uma proposição de génese e na sua íntima relação com Génesis, o primeiro livro das escrituras, convoca o princípio da criação e da origem. Pressupõe-se a ideia de fundamento, de uma causa primitiva que desperta um fenómeno. Porém, ao ser precedida de reticências, a conjugação ganha a dimensão de um paradoxo, pela introdução voluntária de um tempo antecedente indefinido. Aquele que era supostamente o momento inicial recebe uma intrigante herança que remete para a ideia de renovação. E é precisamente o conceito de recomeço que está subjacente a esta exposição. O de “um princípio” que interrompe o continuum e suspende o efeito histórico para assumir o porvir.  

A exposição reúne quatro núcleos independentes, compostos por trabalhos em fotografia, quimigrama, vídeo e instalação, que fazem parte de uma matriz comum exploratória do princípio da criação. Exploram-se processos metodológicos de aparente inacção onde se procede, por reacções químicas e físicas, à transformação que conduz à renovação. Um processo subtil e poético que está presente nas diferentes peças. Para além da comunhão conceptual, este conjunto de obras tem em comum o elemento regente água e complementa-se numa dialéctica estética e formal que explora simbolismos vários e novas morfologias.

Adelaide Ginga